Branding • 28 de julho de 2026 • 5 min leitura
Itaú prova que a resposta para a IA não é discurso.
O gesto
A marca lançou uma série em que diferentes artistas recriam sua logo a partir da própria linguagem: colagem, maquete, flores, materiais físicos. Nas peças, os criadores reconstróem o símbolo removendo o T e o U, isolando o I e o A, e devolve a forma a partir de composições .
É um caso raro de campanha que constrói o argumento através da execução, não do texto que a acompanha.
Funciona pela contradição
O truque estratégico aqui é a inversão de expectativa. Marcas de tecnologia, bancos e fintechs vêm tentando comunicar humanidade em copy, em posicionamento, em manifesto. O Itaú faz o oposto: pega o ativo mais rígido e mais "de marca" que existe — a logo — e o entrega para mãos humanas destruírem e reconstruírem.
A tensão “IA vs. humano” normalmente é resolvida com discurso. Aqui ela é resolvida com o próprio material: o logotipo, símbolo de padronização e escala, vira suporte de autoria, imperfeição e tato. Marty Neumeier chama esse tipo de movimento de tornar a marca tangível e sentida, não apenas declarada — e é exatamente o que separa uma campanha sobre um conceito de uma campanha que é o conceito.
O que isso sinaliza estrategicamente
Consistência de sistema, não de imagem única. Ao trocar a logo em múltiplos pontos de contato — perfis, fachadas — o Itaú trata identidade como sistema vivo, não como asset congelado. Isso é coerente com uma leitura mais contemporânea de brand equity: o valor está na plataforma de expressão, não no ícone imutável.
Terceirização da autoria como prova de confiança. Entregar a manipulação da própria marca para artistas externos é uma aposta de risco calculado — e o risco é parte da mensagem. Uma marca que só fala sobre abertura e coragem não convence; uma que literalmente cede controle visual, sim.
Timing como vantagem competitiva. A categoria (bancos, fintechs) está saturada de discurso sobre tecnologia e eficiência. ―Ser a marca que aborda IA pela via humana e sensorial, e não pela via funcional, é diferenciação real em uma categoria historicamente pobre em significado emocional.
O ponto de atenção
A série ainda está em revelação — o próprio conteúdo original sinaliza que "os próximos capítulos" ainda virão. Vale observar se a plataforma vai além do gesto estético e chega a um território de posicionamento sustentável, ou se fica em ativação pontual, bonita, mas sem desdobramento de longo prazo. A diferença entre as duas coisas é o que separa uma campanha premiada de um reposicionamento de marca.