Crie como uma criança e edite como um cientista: o que o clipe de Look Like My Mama ensina sobre repertório criativo

28 de agosto de 20265 min leitura

Crie como uma criança e edite como um cientista: o que o clipe de Look Like My Mama ensina sobre repertório criativo

O Tyler, the Creator disse essa frase uma vez e eu nunca mais parei de repetir. Agora, com o lançamento de Look Like My Mama, do AZ Chike que ele produziu e no qual atua, dá pra ver a frase funcionando na prática.


O vídeo é cheio de referências de cinema: os armários de Napoleon Dynamite, cenas de Sinners, de Men in Black, de Dead Presidents, de Paid in Full. E tem um detalhe de montagem que quase passa batido, boa parte disso aparece enquadrada como se alguém estivesse assistindo àquilo na televisão do quarto. A estrutura do clipe já é, ela mesma, a de uma criança diante de uma tela.


A parte criança

É a que se vê primeiro. É brincadeira, é fantasia, é vestir a roupa do filme. Ninguém precisa ter visto Paid in Full para o clipe funcionar: a graça está no gesto, no exagero, na convicção com que a cena é reencenada.

Essa camada é emoção. E é ela que costura música, letra e quem está do outro lado é o que faz alguém compartilhar antes mesmo de entender.


A parte cientista

É a que quase ninguém enxerga, porque não aparece na tela. Aparece nas decisões: qual referência entra e qual fica de fora, em que ordem, quanto tempo cada uma ocupa, o que se preserva do original e o que se distorce.

Nenhuma dessas escolhas é intuição pura. Todas dependem de já ter visto o suficiente para saber o que uma imagem carrega quando é citada. Isso é repertório criativo.


As duas metades não funcionam sozinhas

Vale dizer o que acontece quando falta uma delas.

Só criança é pastiche: referência empilhada porque é bonita, sem hierarquia e sem argumento. Diverte por dez segundos e não significa nada.


Só cientista é tecnicamente correto e morto: tudo justificável, nada que seja inesquecível. É o trabalho que passa na aprovação e não passa na memória de ninguém.


A frase do Tyler é sobre a ordem. Primeiro solta, depois julga. Quem inverte quem edita enquanto cria mata a ideia antes dela existir.


Tudo começa no olhar

Na direção de arte, tudo começa no olhar. E o olhar é a única ferramenta que não se compra: software se assina, curso se paga, preset se baixa. Olhar se constrói. Filme por filme, disco por disco, livro por livro, ano após ano.


Por isso consumir referência não é lazer nem procrastinação disfarçada. Todo repertório que você acha que está apenas consumindo está, na verdade, te formando e volta depois como critério, na hora exata em que você precisa decidir.

Ninguém dirige aquilo que nunca viu.

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